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Banda Shock comemora 30 de rock e anuncia retorno ao palco após 8 anos sem tocar em João Pessoa-Pb.

A juventude pessoense do início dos anos 70 cerrava fileira em quatro divisões musicais. Uns aderiram à música de protesto capitaneada por Geraldo Vandré e à nascente “MPB”. Outros embalavam suas noites ao som dos ídolos da Jovem Guarda. Havia os apaixonados pelos ingênuos rapazes dos Beatles. Assim como os seguidores do irreverente Rolling Stones. Entre esses últimos figuravam os irmãos Carlos, Paulo, Marcos e Edgard Roque, moradores dos bairro dos Expedicionários, unidos por um sonho comum: formar uma banda de rock, embora nenhum deles cantasse ou tocasse qualquer instrumento, ainda.

A primeira metade da década de 70 0s irmãos Roque consumiram ouvindo música em casa e na casa de amigos. Os cabelos cresceram e o vestuário coloriu-se à moda hippie, semeando preocupações no seio da família pequeno burguesa. Levavam a vida à toa, curtindo os bons tempos do “pickup Garrard da Gradiente” e do long-play. Eram todos adolescentes desempregados e sem planos de trabalhar. Queriam apenas criar uma banda; tocar é que eram elas, pois ninguém tinha a mínima noção de música ou de canto. Enquanto isso gazeavam aulas para ouvir discos na casa dos colegas. Sábados e domingos, então, eram uma festa.

Com a entrada em cena dos pesos pesadíssimos como Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Rush e Alice Cooper, cujos discos começaram a pipocar aqui e ali nas poucas lojas especializadas existentes na cidade, o som dos Rolling Stones foi perdendo altura e qualidade, até ser totalmente descartado pela irmandade Roque, que, a partir de 1976, não só aderiu definitivamente ao estilo heavy metal (metal pesado), como despediu a teoria e fechou contrato com a prática, lançando-se com ações e não mais com palavras ao desafio de realizar o tão acalentando sonho de formar uma banda.

O começo não foi fácil. A cidade não tinha sequer uma loja de instrumentos musicais. E se tivesse, também não adiantaria nada, pois eles não tinham dinheiro para comprá-los. Carlos Roque, sentado no tapete do estúdio que construíram em sua casa, no bairro do Miramar, relembrou os percalços iniciais: “O jeito foi começar como autodidatas. E pior: tivemos que fabricar instrumentos. A nossa primeira bateria foi feita de zinco. Mas a vontade era maior do que as dificuldades. Depois começamos a comprar instrumentos usados”.

Três anos depois, nascia, de verdade, a banda Shock, pioneira do heavy metal na capital paraibana. Garagens, praças e bares foram os primeiros palcos do grupo, que arregimentou, logo de início, um bom número de fãs. O nome surgiu depois de tantos choques elétricos que levavam montando os rudimentares equipamentos de som.

“Eu comecei tocando bateria e cantando. Paulo assumiu o baixo e Edgard e Marcos tocavam guitarras. Mas eu tinha muita dificuldade com o vocal. Convidamos, então, para cantar, Eduardo, que passou uns três anos conosco. Depois largou tudo. Não tinha o rock no sangue”, comentou Carlos.

O sabor do sucesso no palco do Santa Roza

A banda Shock ainda era um quinteto, com os quatro irmãos Roque na cozinha e o vocalista Waldir Dinoá na sala de visitas, quando a década de 80 começou a engatinhar. Dali a pouco, seria um trio, com a saída de Marcos (que foi cursar faculdade em Campina Grande) e Dinoá. “A banda melhorou muito com a chegada de Dinoá, embora houvesse divergência quanto à direção a ser seguida pela Shock. Eu e meus irmãos queríamos manter a linha heavy metal do Led Zeppelin, Black Sabbat. Deep Purple etc. Já o Dinoá queria seguir a trilha do Rush, na qual permanece até hoje. Mesmo assim, foi um período muito bom”, disse Carlos.

Com o afastamento de Marcos e Dinoá, os Roque sentem a necessidade de parar com a Shock para refletirem sobre os rumos da banda. Em 1983, estão novamente nos palcos, agora com um som marcado pela influência de Judas Priest, Iron Maden e Motorhead, entre outros grupos. A banda dá uma guinada qualitativa com a estréia do vocalista Américo, que permanece até hoje como o “cantor oficial” do grupo. “O cara deu um brilho da p... à Shock. Américo tem ótima dicção e nós nos sentimos seguros com ele no palco”, ressaltou o baterista. A Shock dá adeus às e passa a excursionar por cidades do interior do estado.

Carlos considera o show no Teatro Santa Roza, em 1984, como o ponto decisivo para a consolidação da banda no cenário da música alternativa paraibana, até porque, rendeu um disco ao vivo. “Foi a nossa primeira grande apresentação. A expectativa era muito grande porque não existiam bandas de rock, no estilo heavy metal, em João Pessoa(Pb). Poucas pessoas ouviam esse tipo de som. E não fizemos feio, não. A partir daquele show, passamos a contar com um público fiel”, relembrou o músico. Ali começava uma importante etapa da história da Shock, com shows em projetos como Araponga e Boca da Noite e nos festivais de arte das cidades de Areia e Cajazeiras.

Decolagem abortada

Em 1988, os rapazes da Shock gravam uma demo oficial com seis músicas no repertório, entre elas aquela que viria a se transformar em uma espécie de marca registrada da banda: “Insônia”. A composição, que também figura entre as faixas de Shock Ritual, disco sobre o qual o grupo já estava debruçado, é incluída no repertório do primeiro disco (LP) da série Aquarius, uma coletânea de artistas paraibanos produzida por Décio Alcântara, lançado em 1991. Nesse mesmo ano, a Shock, inicia em Recife(PE), a gravação de Shock Ritual, com Américo cantando em português. O quarteto não demoraria a tomar um choque de verdade.

Durante as gravações de Shock Ritual na capital pernanbucana, os músicos paraibanos conhecem o empresário Luziano, do Rio Grande do Norte, que propõe ao grupo gravar um disco em inglês, facilitando, assim, o lançamento da Shock tanto no Brasil quanto no esterior. Como Américo domina a língua de Shakespeare, a mudança de idioma transcorre naturalmente. A Shock seleciona nove de suas melhores composições, traduz as letras para o inglês, e grava, então, no estúdio Estação do Som, em Recife(PE), o LP Heavy Metal we salute you (algo como: heavy metal, nós saudamos você).

“Foi uma coisa de louco. Em um dia gravamos durante seis horas, pela manhã, e mais seis horas à noite. Retornamos a João Pessoa(PE) e, na semana seguinte, repetimos a dose, também em um único dia. Imagine o que é acordar de manhã, a voz ainda grave, e entrar num estúdio para colocar a voz. Mas estávamos muito entusiasmados e esperançosos. Achávamos que, a partir dali, a Shock finalmente iria decolar”, disse Carlos. Ocorre que na biografia de toda banda que se preza tem que constar uma tragédia. Luziano viajou a Sãoo Paulo(SP) para assistir a um show do Iron Maden e, ao retornar a Recife(PE)... morreu.

“Aquilo sim foi um choque”, ironizou Carlos. Luziano sofria de leucemia. Nós ficamos órfãos. Até hoje. Ele era o nosso empresário. Com a morte dele, o projeto de lançar Heavy Metal we salute you em todo o país e no exterior, além de uma série de shows que estávamos programando para vários estados, tudo isso foi por água abaixo”, completou sem esconder a tristeza. Em São Paulo, Luziano prensara mil cópias do disco, ficando com a metade e entregando a outra à Shock. Correndo de mãos em mãos de forma aleatória, o disco chegou às redações de revistas como Rock Brigade e Roadie Crew, que na pouparam elogios à banda.

Os rapazes da Shock encontraram em Heavy Metal we salute you um alento para a tragédia que significou a morte de Luziano. Cópias do disco foram enviadas para vários países, principalmente Alemanha, Itália, França e Japão, recebendo avaliações positivas de importantes críticos especializados em rock, registradas em jornais, revistas e sites. “Agora mesmo estou com quarenta discos embalados e pronto para enviar para à Alemanha, atendendo ao pedido de um fã, que entrou em contato conosco para comprá-los. É comum recebermos telefonemas do exterior, o que prova a qualidade do nosso trabalho”, contou Carlos.

A Shock não se rendeu à fatalidade. Na esteira do sucesso de Heavy Metal we salute you, fez shows em Recife(PE), Fortaleza(CE) e Natal(RN). “Cobrávamos apenas o dinheiro da Van e o cachê dos músicos. O importante era tocar, manter a Shock viva”, ressaltou Carlos. Em 1998, a Shock vive um grande momento, ao abrir o show, no ginásio de Sport Clube, em Recife, da banda Mercyful Fate. “Nós somos fãs da banda. Quando telefonaram nos convidando para abrir o show, quase caímos para trás”, disse. Em 2000, também no Recife, a Shock saboreia novamente o sucesso ao abrir o show da banda inglesa Saxon.

O ostracismo na terra natal

Os anos 2000 levaram os jovens pessoenses de volta para casa. Rock se curte agora em frente a uma tela de computador. Nas praças a bola da vez são as manifestações musicais de raiz nordestina e popular e, nas casas de espetáculos, as bandas de “forró de plástico” têm primazia. O sonho dos irmãos Roque, no entanto, não morreu. A banda Shock, segundo Carlos, após quase nove anos sem tocar na capital, retornará ao palco, até novembro, para um show comemorativo dos 30 anos de sua criação. “Não temos o apoio dos poderes públicos, mas vamos realizar esse show por cima de pau e pedra”, garantiu Carlos.

O problema, na opinião de Carlos, é que a Shock nasceu no lugar errado e na hora errada. “Por incrível que pareça, agente tocava mais na ditadura militar. Os representantes dos poderes públicos na área cultural nos olham pelas costas. Por eles, nós já estaríamos mortos. O nosso pensamento é diferente. Para nós, o gestor público tem que dar oportunidades a todos os tipos de música. Isso é democracia. Privilegiar um ou dois segmentos não promove o desenvolvimento cultural da nossa terra. O rock sempre teve o seu público. E o heavy metal não morreu. Pelo contrário. Ainda vai dar a volta por cima”, criticou o artista.

Carlos reconhece que hoje está muito difícil tocar em João Pessoa, inclusive porque nem as emissoras de rádio abrem mais espaço para o heavy metal, descumprindo, no caso da Shock, a lei que as obriga a enxertar 20% de música local na programação. “Ah, que saudades do Jardim Elétrico (programa de música alternativa que ia ao ar pela Rádio Universitária FM, da universidade Federal da Paraíba). Eles pensam que somos um Zé ninguém. O rock é coisa do demônio. Oh, mentalidade”, suspirou o músico. Outro problema apontado pelo roqueiro é que muitas bandas tocam quase de graça a título de “mostrar o trabalho”.

Com a Shock no coração

Nenhum dos integrantes da Shock vive do dinheiro que faturam com a banda. Até porque, quase não há arrecadação de direitos autorais e os shows, pelo menos em João Pessoa, estão fora dos planos, até novembro. “Só tocamos com cachê garantido. Não dá mais para sair por aí pregando cartazes e pedindo apoio a um e a outro. Merecemos respeito, até pelo nome que temos lá fora. Viver de música, aqui, é uma piada. Queremos ganhar dinheiro, sim, mas tocando por prazer. Unir o útil ao agradável é o nosso projeto. Mas os fãs podem esperar porque o nosso show de aniversário vai sair, isso nós garantimos”, sublinhou.

Cada um na Shock se vira como pode. Carlos é psicólogo e vive da profissão. Assim como Edgar, que é economista; Paulo, que é professor de educação física; e Américo que é técnico em telecomunicações. “A para mim é tudo. É o meu estilo de vida. É o ar que eu respiro”, confessou o guitarrista Edgard. “ A Shock é um pedaço da minha vida. Infelizmente a cidade não ajuda. O mercado local é obsoleto. É por isso que nos dedicamos a outras atividades. Mas estamos na batalha. Gosto demais da Shock para abandonar o projeto. A banda ainda vai renascer por aqui”, prometeu Paulo o contrabaixista.

Os fãs que aguardem, pois a Shock está com um CD no forno, Metal Shock. É pagar pra ver. (matéria impressa no jornal O NORTE em 13 de setembro de 2009 - William Costa)

Última atualização ( Seg, 12 de Outubro de 2009 23:38 )